quinta-feira, 23 de março de 2017

Uma pequena estória sobre os Vikings


Sob a garoa e um frio de doer, estamos na rua à espera do chefe viking e dos seus guerreiros. Mas, nessa noite de janeiro no vilarejo de Lerwick, nas Ilhas Shetland, dá para sentir uma euforia no ar. Ao meu lado, um sujeito com duas crianças pequenas vibra ao avistar fumaça avermelhada subindo detrás do prédio da prefeitura. “Parece que botaram fogo em tudo”, grita. No fim das contas,o que nos trouxe até aqui é isso mesmo: o fogo. Ou o Up Helly Aa, a grande e incendiária celebração do passado viking que acontece todos os anos nas Shetland, no norte da Escócia. E eu também estava ali, acima de tudo, para ver um barco viking sendo reduzido a cinzas pelas labaredas.

O bando de vikings toma conta da rua, as chamas tremeluzindo nas tochas que carregam. Um urro de contentamento ergue-se da multidão quando aparece o barco comprido, arrastado pelos guerreiros. Por volta de 1 200 anos atrás, os vikings desembarcaram nesse arquipélago rochoso e, depois de esmagarem a resistência local, apoderaram-se das ilhas. Durante quase sete séculos, os senhores noruegueses dominaram as Shetlands, até que, por fim, deram as ilhas como garantia de dote a um rei escocês. Hoje, o antigo dialeto norueguês – o norn – está praticamente extinto, mas os ilhéus guardam um feroz orgulho do seu passado viking. Todos os anos, eles se preparam para o Up Helly Aa, montando, prancha por prancha, uma réplica de um barco viking.

Agora, a multidão entoa antigas canções que falam de reis navegantes e barcos-dragões, e o barco é levado até um campo rodeado de muralhas. Assim que o chefe dá o sinal, uma chuva de tochas ateia fogo ao barco. As chamas se propagam até o topo do mastro e as fagulhas esvoaçam pelo céu noturno. As crianças batem os pés e dançam, quase delirando de tanta excitação.

Mais tarde, na mesma noite, enquanto os foliões continuam a se divertir em festas por todos os lados, me dou conta, assombrado, do fascínio que os vikings ainda exercem sobre a nossa imaginação. Desaparecidos há tanto tempo, esses navegantes e guerreiros da Idade Média continuam a viver nos mundos inventados por cineastas, romancistas e desenhistas de quadrinhos. A maioria de nós se lembra de detalhes a respeito desses personagens – o modo como lutavam e festejavam, onde viviam, como morriam. Mas o que conhecemos, de fato, a respeito dos vikings?

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